
Saí de casa de manhã e quase que tinha um carro a interromper a saída do meu, depois cheguei à faculdade e a C. perguntou-me se tinha tido uma noite longa. Eu respondi-lhe: antes fosse. De facto, se calhar nunca tive uma dessas noites longas, e foi por isso que ontem não me apeteceu jantar e que hoje não me apeteceu acordar a horas. Talvez seja por isso também que me invadi de lágrimas no espaço entre o jantar e o milagroso momento em que caí na bruma deliciosa que é adormecer. Não tive nunca uma dessas longas noites, tenho a certeza agora - porque o K. nunca se distraiu verdadeiramente com as mechas do meu cabelo, porque nunca me disse
amo-te , porque nunca tivemos uma conversa séria sobre arquitectura, ou porque nunca me deu margem para lhe explicar o que é cheio e o que é vazio. Todas estas afirmações podiam transformar-se de imediato em interrogações.